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Exposição fotográfica virtual trata sobre as relações entre patrões e empregada doméstica

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“Suíte Master Quarto de Empregada” é uma provocação sobre alguns comportamentos da classe média brasileira

Em sua exposição fotográfica virtual “Suíte Master Quarto de Empregada”, o jornalista, fotógrafo e professor da Universidade Federal de Pernambuco, José Afonso Silva Júnior faz uma provocação sobre as relações – não apenas profissionais, legais, trabalhistas, mas também pessoais – entre patrões e empregados (domésticos).

Nos últimos três anos, José Afonso fotografou, como o título da mostra sugere, esses ambientes em casas e apartamentos da Região Metropolitana do Recife (indo da classe média baixa até a mais abastarda) e documentou não apenas imagens, mas diálogos, acordos (inclusive os velados) e situações diversas. Todo o conteúdo está disponível para o público no site da exposição e o autor conversa com o público numa “live”, que acontece nesta terça-feira (9/3), a partir das 19h, no Youtube e no Facebook. A mostra tem curadoria do também fotógrafo, professor e pesquisador Eduardo Queiroga.

José Afonso explica que a ideia do projeto surgiu a partir da PEC das Domésticas, em 2015, legislação que assegurou e ampliou os direitos trabalhistas dessa categoria profissional, equiparando-a com os demais trabalhadores do mercado. “E as pessoas estavam mais preocupadas com o impacto financeiro da nova lei, devido ao aumento dos encargos trabalhistas, do que perceber que até então estavam reproduzindo processos históricos enraizados na escravidão só que codificados em relações precárias”, recorda.

Outra consequência da legislação foi sentida na arquitetura e até no marketing das construtoras. O “quarto de empregada” se transformou em quarto de serviço, reversível ou simplesmente depósito. A transformação cosmética, no entanto, não evitou a continuidade das relações precárias. José Afonso constatou, por exemplo, que os depósitos (locais que não precisam obedecer às normas arquitetônicas estabelecidas para quartos: ventilação, iluminação, etc.) passaram a ser usados também como dormitórios.

“É o que podemos designar como uma adaptação casuística. Mudam-se os nomes, permanece o eixo de relações entre ambientes desqualificados destinados a pessoas que são vistas também como tal”, constata.

O fotógrafo diz que para ter acesso completo a casa das pessoas se comprometeu em manter o anonimato dos envolvidos. Jornalista por formação, José Afonso não estava ali, no entanto, para captar apenas imagens, queria também e até na mesma medida, histórias, contextos e diálogos. A estratégia deu certo. Além de um amplo material fotográfico sobre o tema, também colheu frases intrigantes. Das públicas, como a do ministro da Economia, Paulo Guedes que declarou na época em que o dólar era mais baixo, “havia empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada”; a privadas, “Depois da novela, ela está liberada e pode ir dormir”.

Ele reconhece que o tema acaba remetendo, ainda que involuntariamente à obra do sociólogo Gilberto Freyre, o clássico Casa Grande & Senzala. Mas pondera que, em que pese, e muito, o entendimento no tempo atual e a disposição dos espaços como um prolongamento de relações coloniais e escravocratas, ele procurou ter a devida cautela no conjunto das imagens no sentido de não repetir o tom gilbertiano.

“Tampouco pretendemos dar ao contexto contemporâneo uma interpretação fotográfica da Casa Grande & Senzala. O prolongamento a que nos referimos, é menos no sentido de harmonizar a “democracia racial” elegida por Freyre que, na prática, fabricou e fabrica corpos de pele escura dóceis e servis, do que problematizar o feixe de relações sociais que persiste em diversos níveis da desigualdade e da segregação”, esclarece.

LIVE

Na live da terça-feira, 9 de março, além de José Afonso participam Mirtes Renata, mãe do menino Miguel, o curador do projeto, Eduardo Queiroga e Daniele Zaratin, que é doutora, pesquisadora, professora dos níveis básico e superior de ensino e defensora das políticas públicas voltadas para as camadas mais vulneráveis da população. Nascida e criada na região de Carapicuíba (periferia da Grande São Paulo), ela começou a trabalhar aos 12 anos. Aos 18, para não perder a fonte de renda familiar, precisou substituir sua mãe como empregada doméstica. O que deveria ser temporário durou quatro anos. Somente aos 22, esse ciclo se rompeu: por meio de políticas públicas de acesso à educação, Daniele conseguiu ingressar na universidade. Formada em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, toda a sua trajetória acadêmica só foi possível porque contou com bolsas da própria instituição universitária e de órgãos de fomento à educação e à pesquisa, como a CAPES.

Confira o site da exposição.


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